15.3.09

dia 5

dia 5: espaço cultural X 

subjetividade, elaboração e texto
-atividade sugerida:
oficina de literatura de roteiro com orientadores(s) convidado(s).
confecção individual ou coletiva de cenas e diálogos e sequências aspirando a possível amarração em roteiro curto (1 ou 2 dias?)

orientadores já engajados:
 
-Chris Riera, dramaturgista especialista
-Dennison Ramalho, cienasta e roteirista

4.3.09

dia 4

dia 4: espaço Cora Garrido


cidade, intertexto e transformação
visita ao espaço Cora Garrido o ‘Córner do Leão’ onde funciona um centro de ensino e treinamento de boxe, biblioteca,acesso a internete, creche, que servem social e culturalmente a população do entorno

-reciclando lógica, espaços e homens
-intertexto no urbanismo

dia 3

dia 3: academia Kurachi

corpo, murro e experiência
uma noite no local de trabalho e santuário do lutador - a academia - treinando boxe com o mestre Gutemberg Ferreira, pugilista profissional categoria leve (12 vitórias, 7 KO; 5 derrotas, 1 KO) para aprender que o ‘bagulho é louco e o processo é lento’ nas palavras de mestre Guto. 

-'fazer a mão'
-alongamento, aquecimento e ginástica pugilística
-batendo saco: jab, direto, cruzado, gancho e upper
-noções de técnica de combate e movimentação no ringue
-noções das regras e da etiqueta no boxe

dias: 3.a ou 5.a
material: 4 ataduras de crepe de menor largura por 'aluno'

dia 2

dia 2: ginásio Baby Barioni


realidade, lirismo e êxtase
vivência do tradicional evento de boxe amador que acontece toda terça-feira no parque da Água Branca. Aberto ao público e gratuito, o local é portal de entrada ao universo do boxe paulistano.

-semelhanças e diferenças: espaço, tempo, estrutura no esporte, cinema e teatro
-estado, espetáculo e violência.







3.3.09

dia 1

dia 1: espaço cultural X

imaginário, drama e catarse
projeção filmes, debate com convidado(s), reflexões e especulações

convidados já engajados:
-
Chris Riera, dramaturgista especialista em dramaturgia
-
Gutemberg Ferreira, pugilista profissional, vice-campeão mundial

sugestão Chris Riera - projeção trechos de filmes, palestra, debate
-catarse, conceito primordial, tragédia grega, poética de Aristóteles
-a estrutura clássica, protagonista e antagonista
-a essência do drama, a semente do conflito, compaixão e aversão
-pathos, obstáculos na trajetória do herói

sugestão Gutemberg - projeção trechos de lutas, palestra, debate
-tragetoria, epopéia
-depoimento realidade, o que não está na fita
-construção da ficção, o que é real
-contextos metadramáticos, os segundos

sugestão filmes
-O Ringue (Alfred Hitchcock, 1927)
-Corpo e alma (de Robert Rossen, 1947)
-Rocco e seus irmãos (Luchino Visconti, 1960 )
-Touro indomável (Martim Scorcese, 1980)
- Rocky I (II, III, IV, V e VI facultativos)
-Quando éramos reis (1996, Leon Gast)
-Menina de ouro (Clint Estwood, 2004)



Proposta Eixo

Proposta aberta de eixo pedagógico:

NOBRE de origem, na estética, na ética
ARTE marcial, política, do corpo, do espetáculo
NO em cima, por dentro, por fora, em baixo
QUADR(AD)O da tela de cinema, do ringue, na retícula da cidade


George Belows

‘Arte e boxe, assim, têm muito em comum: a preparação infinda, a radicalidade de uma entrega gratuita, a intensidade do instante criativo, a possibilidade do fracasso, a lida com o acaso e a espessura do real se manifestando por todos os cantos. Mas isso ainda diz pouco; a melhor maneira, então, para descobrir o que a literatura e o boxe possuem em comum é fazer literatura e boxe, ou então assistir lutas e ler bons livros; quem fizer isso, poderá descobrir a pegada da literatura e a poesia do boxe.’ 
Ronaldo Bressane

25.2.09

deu no jornal...o que pode acontecer com espíritos livres.......

alunos gregos trancam seus professores por duas horas

em Tessalônica, alunos da escola secundária trancaram 15 professores em suas salas durante duas horas.

toda a história começou na sexta-feira passada, em uma escola secundária, localizada no bairro de tumpa, quando os estudantes colavam alguns cartazes do "centro cívico ocupado", já que no dia seguinte haveria uma assembléia popular naquele lugar ocupado.

a diretora da escola, componente do partido “syriza” (à esquerda) ao ver os cartazes começou a arrancá-los, ameaçando os estudantes para que não continuassem com a ação .

essa escola teve um papel muito importante durante o movimento de ocupação estudantil, e até hoje são organizadas jornadas, palestras e projeções pelo próprios estudantes.

os estudantes não seguiram os "conselhos" dos professores, e nesta última segunda-feira os professores decidiram expulsar dois alunos do colégio.

na quarta-feira (18), ao serem informados sobre as expulsões, todos os alunos da escola se recusaram a entrar nas salas de aulas, e se abstiveram de quaisquer tipo de atividades.

foi quando, os próprios alunos trancaram os professores dentro de suas salas exigindo a não expulsão dos seus companheiros.


17.2.09

Los Bandoleros















Cansava da solidão em que forjara sua têmpera. Vivera de telhado pra telhado, janela em janela retomando o que era seu e evitando a lei por tempo demais. Fizera assim seu caminho, um olho na cenoura e outro no bastão. Escapava quase sempre. Uns poucos flagrantes dobraram-lhe um pouco o couro mas nunca a espinha que era malhada em aço.

Um dia a ambição roeu-lhe a barriga. Bastava de casinhas, trabalho de formiga desgarrada dos diabos e também cansara de fugir da ordem impertinente dos homens. Sentia-se destemido, forte e relaxado. Faria algo grande. Tomaria a cidade, talvez. Ele faria leis. Oh, sim! Lhes daria uma bela lição. Calculou que não conseguiria sozinho. Urgia alistar-se. Informou-se aqui e ali pelos subterrâneos.

-Moira, é o nome dela. Juntou um grupo infernal.

-Sim?

-Oh, sim.

Preparavam a próxima ação, algo grande e estavam aceitando ajuda. Foi bem recebido pelo bando. Pareciam meio jovens, meio loucos e entendiam bem da coisa. Gostou deles. Entre um gole e outro saudou mentalmente Virgulino, Butch e Garibaldi. Depois de comer, regozijou-se silencioso com Villa e los comancheros. Lawrence ofereceu-lhe um trago do narguilé. Aceitou agradecido.

V.M.*

* Vico Marques é chegado num clichê. Pensa ser melhor partir de um a terminar neste.

16.2.09

Bibliografia Educação Democrática, curso da Politéia

Pessoal

http://curso.politeia.org.br/tiki-index.php?page=Bibliografia+completa


segue aquela bibliografia incrível que mencionei pra vocês...a maior parte tem no www.estantevirtual.com.br....e a preços ULTRA acessíveis....se joguem no Neill, no Korcjak, no José Pacheco, Helena Singer.....vale muuuuuito a pena...

aproveitem e dêem uma navegada no site da politéia:

www.politeia.org.br


outro site bacana:

www.democraticeducation.com


Vamo que vamo!

grande beijo.......Mô

10.2.09

Sobre educação, alma e liberdade (não necessariamente nessa ordem), Henry Grazinoli

Nosso corpo é o senhor da clausura. Nossa alma é a senhora da liberdade. Nosso corpo integra o conjunto de tudo o que é materializado, e como tal, está preso em limites de tempo e divide espaço com tudo que é material. Nossa alma é o infinito, e como tal, não integra o conjunto de tudo o que existe em estado concreto nem divide espaço com coisa alguma. Nossa alma é, ela mesma, tudo o que existe. Integrar um conjunto é muito diferente de ser o conjunto. E nossa alma é o conjunto primordial. Nossa alma é o conjunto que contém diversos outros conjuntos, entre eles, o conjunto do mundo material.Dessa forma, não é o corpo que contém a alma. Ao contrário, a alma é que contém o corpo. Essas afirmações, que parecem tiradas de alguma palestra espiritualista ou livro de auto-ajuda popular, na verdade é mera questão de ponto de vista, uma maneira simples de apontar o foco da mente e do sentimento na direção da liberdade. Quando a emoção humana se aproxima dessa compreensão, a palavra liberdade ganha contornos mais nítidos e tudo o que parece abstrato fica ao alcance das mãos.Esse pensamento é quase óbvio e há claras analogias a ele em nosso cotidiano: quando nos deixamos escravizar pelo dinheiro, por exemplo, nossa vida social se torna encarcerada em condomínios de luxo e carros blindados. É exatamente assim que fica nossa alma quando vivemos em função do corpo, quando impomos limites materiais para exercer nosso papel de seres espirituais. É como prender um pássaro numa pequena gaiola. Pior. É como enclausurar um pássaro numa caixa de sapatos.Acreditar que o corpo possui uma alma é deixar a alma trancafiada no escuro, com pequenos orifícios por onde ela respira com dificuldade. É mantê-la viva sob tortura constante, convivendo tragicamente com seu desejo mais natural: voar em liberdade plena, pois assim ela é. Processa-se então, irremediavelmente, um distanciamento de alma e corpo e uma confusão primária de pontos de vista: ao invés de enxergarmos o corpo com os olhos imensos da alma, passamos a colocar nosso olho biológico no buraquinho da caixa de sapatos, para tentar enxergar a alma. Mas não é possível. Aos olhos físicos a alma é invisível e sua presença é nebulosa dentro da caixa sombria. O ser humano que olha com os olhos do corpo não pode vê-la. Não pode ouvi-la, pois o pouco de ar que circula na caixa precisa ser racionado. Para tanto, a alma deixa de falar. E tampouco pode senti-la, impedido o tato pela tampa de papelão.Essa inversão de ponto de vista talvez não fosse tão grave caso existisse a possibilidade de esquecer completamente a existência da alma. Se fosse viável viver a vida física sem a substância espiritual em paz e harmonia. Mas não é possível.A alma permanece dentro da caixa e, mesmo invisível aos olhos, nos alerta para sua existência. Sua presença é constante em nosso subconsciente e nos informa que há algo a ser resgatado, que há algo a ser resolvido, que há algo a ser descoberto. É o eco distante que persegue os ouvidos de quem abandona um filho, de quem deixa uma importante missão a cumprir, ou, simplificando ainda mais, de quem tem um trabalho a exercer e posterga sua realização. A alma enclausurada sopra seu desejo de liberdade em nossa insônia, em nossos sonhos, em nossos pesadelos, em nossas dúvidas e decisões. É como presenciar o horror de observar um semelhante preso e torturado que implora por clemência. Só é possível livrar-se dos apelos da alma escravizada libertando-a.Pensar a educação é (só pode ser) pensar no processo de libertação da alma. Do educando e do educador. Técnicas e informações fazem parte, tanto quanto o corpo, do conjunto material. Transmitir o conhecimento material com didática e competência, por si só não faz de ninguém um grande educador.Um grande educador deve estar em busca de abrir a caixa de sapatos na qual a alma é prisioneira. Deve ser alguém que mostre aos educandos seu exemplo de busca espiritual, e que compartilhe com todos o desejo de devolver à alma seu papel primordial na existência humana. Educar é procurar, junto dos aprendizes, a chave que abre as portas da prisão que esconde nossa essência mais verdadeira. Educar é buscar coletivamente a liberdade.A educação verdadeiramente democrática, processo no qual a busca pela liberdade da alma é uma constante, torna-se um imenso desafio para alunos e professores que nela mergulham com abertura e desejo sincero de encontrar a essência da vida. Isso acontece porque, normalmente, estamos protegidos por nossas cascas culturais, morais e hierárquicas (grossas caixas de sapato). E a alma, quando aparece, não é bonita nem feia, não é boa nem ruim. A alma é a alma, e pode colocar todo um processo de educação democrática em xeque caso não haja sinceridade, disposição e consonância nos objetivos da jornada a ser percorrida por educadores e educandos. De toda forma, é um desafio que vale a pena. Pela minha experiência, não há ser humano que resista indefinidamente a um processo de busca espiritual. Essa busca acaba unindo todos os corações envolvidos no ensino e no aprendizado numa única energia. E essa energia sempre se mostra carregada de afeto, de verdade, de harmonia e de paz. O grupo de educadores e educandos deixa de estar contido no conjunto material e passa a ser o conjunto espiritual. Será que esta é, afinal, a face da alma quando liberta da caixa de sapatos? Ainda não temos certeza, afinal, estamos começando a aprender a olhar pra ela. Mas sem dúvida alguma ela cria uma imagem forte, icônica, correspondente à do pássaro ao qual se devolve o vôo. Henry Grazinoli, originalmente postado no www.ouroblogue.blogspot.com

24.12.08

Meu primeiro podcast


Gravado por Moira Toledo em um fonezinho, em casa, numa tarde inspirada de janeiro de 2008.

17.12.08

Sobre aprender a ser gente, primeiro podcast - Moira Toledo

E aí eu achei que essa história de ser gente tinha saído totalmente da minha cabeça...

e esse podcast maluco que eu gravei há quase um ano e nunca tinha encontrado eco no mundo...

e aí aconteceu um monte de coisa na escola de santo andré, e quando ouvi o podcast novamente um monte de coisa começou a fazer sentido de novo....

e pra completar o Henry, ao ler um post do blog, me traz a frase que não conhecia conscientemente, e que só podia ser mesmo do leminsky:

"esse negócio da gente querer ser exatamente o que a gente é ainda vai nos levar além"

espero que gostem do podcast. Quem sabe não me inspiro a fazer outro....


bjo!!

Mo

10.12.08

Meu sofá, o mundo de ponta cabeça e a minha pequena biblioteca de alexandria...

Educar é construir um espaço íntimo e lúdico, entre eu e você, aqui e agora, não importa o tempo-espaço.

Meus alunos sempre gostaram de aprender com as histórias da vida. Acho que nascemos "talhados" para as emoções narrativas...

Crônica

Década de 80. Eu era criança e minha casa se parecia com uma galeria de arte. A parede quase não se via, debaixo de quadros de todos os tamanhos e cores de moldura.

A estante de livros ficava em frente ao sofá, no qual eu des-assistia televisão, de ponta cabeça. Aprendera a ler há pouco, juntando as sílabas das palavras nas lombadas dos livros dessa estante. Nunca soubera até então onde ficavam os acentos das palavras, e lia encantada "Stanislavskí". Com acento no final. E lia e relia outros títulos misteriosos...A volta do parafuso...ele iria retornar?...de onde?....ah....será que é porque o parafuso dá voltas?....pergunte ao pó...como assim?...o pó não sabe nada!...que sabe da vida o pó?...Fante...Elefante, Fanta, John fanta, John Fante Elefante.....Andorinhas de Simone de Beauvoir.....be-au-vou-ir...vou ir, andorinhas....O Zen e a Arte de Consertar Motocicletas.......e eu imaginava o monge desmontando pacificamente todas as motos.....

O divertido da história toda foi, recentemente, comentar isso tudo com a minha mãe e ela, encucada, ficar tentando descobrir a que livro da Simone de Beauvoir eu estava me referindo, até as duas descobrirmos, juntas, que se tratava de "O mandarim" - e que as andorinhas ficavam realmente por minha conta...

Flash Forward, alguns anos depois....

E aí eu tinha onze anos e estava descobrindo a poesia. Encantada por Paulo Leminsky. Poesia existia, e chamava Paulo Leminsky. Leminsky era uma daquelas lombadas, ficava perto do Stanislavskí na estante....Mas o livro era meio diferente, por vários motivos. Primeiro, ele era enorme! Parecia um livro de escola, livro de arte....A capa parecia feita de xerox ampliado; a tinta da impressão aparecia com todos os defeitos. O nome do livro era enorme....nem parecia nome de livro. Era tão grande que nem tava escrito na lombada. Chamava alguma coisa bem maluca, tipo:
"Não fosse isso era menos
Não fosse tanto era quase"
E isso estava escrito na capa, bem grandão, estouradão, num formato que lembrava o que pouco depois eu iria descobrir se chamar hai-cai.
Além disso, esse era um dos livros da estante de casa que tinha uma coisa especial: era assinado pelo autor e dedicado a minha mãe. Então ela ficava uma arara quando eu levava escondido pra escola. Por algum motivo bem auto-destrutivo porque não havia uma só criança que compartilhasse, naquele momento, da minha paixão recém descoberta por ele, e pelos Beatles.

Havia mais dois livros assinados cujos autores curiosamente eu fui descobrindo ao longo dos anos: um de um poeta fantástico chamado Chacal, que eu aos 12 ou 13 anos iria descobrir e me fascinar...e outro de um camarada chamado Caetano Veloso, "Alegria, Alegria".

O Caetano Veloso era uma figura meio mítica pra mim. Minha mãe tinha vários vinis que eu adorava, especialmente o "Cores e Nomes" e o "muito", e desde criança ouvia ambos repetidamente. A capa dos discos sempre me intrigou muito, e eu a sexualidade dele pra mim sempre foi um mistério.

Lembro de ainda ser criança e me fascinar com a voz do filho do Caetano naquela música, qual mesmo....? Ilê ayê....e pensar, bom ele tem um filho, canta o amor por várias mulheres, ok....e daí ouvir músicas como Menino do Rio e ficar tentando entender porque ele cantaria isso para um menino. Lembro de conversar com minha mãe sobre isso, talvez a primeira conversa sobre homossexualidade, e de ela me explicar que todo homem tem um lado feminino e tal. Acho que essa parte propriamente dita eu fui entender muitos anos depois, ouvindo Super Homem do Gil, e entendendo que na verdade essa história de yin-yang está muito além da sexualidade do Caetano....

Mas me lembro muuuuuito bem da imagem do caetano de sunga de crochê e do "calor que provoca arrepio", e tudo isso na minha cabeça de uma maneira bem pasolini....Acho que o Caetano e seu jeito aberto de falar da sua sexualidade me inspirou muito na forma de lidar com minha própria....imaginar que um cantor público como ele poderia ter a liberdade de exaltar um menino do rio é criar uma imagem muito poderosa para uma criança....

E aí estou contando tudo isso para dizer que pouco depois de descobrir o Leminsky, comecei a estudar poesia na minha escola, que não por acaso se chamava oswald de andrade. Comecei, claro, pelo próprio, e em pouquíssimo tempo estava fascinada com os modernistas.

Comecei escrevendo para a aula de redação, que chamava-se algo como "Comunicação e Expressão"(porque as pessoas tem a mania de tucanar as coisas...). E logo escrevia poesia a torto e a direito.

A professora, Ana Cláudia, dava estímulos interessantes para que escrevêssemos. E num desses exercícios escrevi um poema que chamou sua atenção. Ela leu e me disse: - Guarde esse poema e releia daqui a muitos anos. Você só vai entendê-lo de verdade daqui a muitos anos. Não guardei, mas decorei, pois era simples e dizia muito sobre mim, na época e agora.

Ele era exatamente assim:

"Penso muito bem antes de fazer as coisas.
Mas não penso antes de comer as coisas.
Da comida eu gosto de sentir o gosto.
A coisa eu gosto de fazer certo."

Passei anos meditando sobre o poema sem entender do que a Ana Cláudia falava. E esqueci por muitos anos. Outro dia lembrei dele e de repente me caíram fichas e um telefone público na cabeça.

Existia e ainda existe dentro de mim essa cisão, esse ying-yang profundo e integrado, essa dimensão racional que tantas vezes se distancia do corpo, que não pensa.

Uma criança sabe tudo. A vida se encarrega de estragá-la.

Entre um tempo e outro relatado nessa crônica, eu estudava na vila madalena e muitas vezes caminhava até o atelier de uma amiga da minha mãe, artista plástica, a Rozélia. Entre a escola e o atelier ficava, aliás ainda fica, o mítico empanadas...E foi lá que, com minha mãe e seus amigos, eu muitas vezes ficava depois da escola, ouvindo suas conversas de adultos artistas e poetas, sobre a vida, a política, a cultura. Muita política e muita cultura.

Numa dessas estadas no Empanadas minha mãe me chama e diz: taí filha, deixa eu te apresentar uma pessoa....esse é aquele poeta que você gosta, do livro grande...daquele poema que você decorou....

Ele sorriu pra mim. O bigode era fenomenal. Perguntou seu eu gostava de seus poemas e eu disse que gostava especialmente de um. Minha mãe avisou que eu sabia de cor, porque gostava de recitar para as pessoas. E então disparei o poema, cara a cara com seu autor, certamente sem imaginar o efeito cômico da cena. 11 aninhos de pura cara de pau, olhando para o meu ídolo Paulo Leminsky:

"O Paulo Leminsky
é um cachorro louco
que deve ser morto a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhadaputa
fazer chover em nosso piquenique".

Esse é o poema da minha vida. Leminsky implodiu a si próprio, e botou lenha no meu fogo. Nunca parei de escrever. Ás vezes escrevo em cinema, só pra variar. Ou tento fazer das minhas aulas uma espécie de poesia.

Tudo isso pra dizer que.....

As lombadas dos livros da minha mãe falam mais da minha história do que meu currículo vitae. Minha sala de aula foi minha vida. A escola mais atrapalhou que ajudou, sorte que eu nunca gostei de guardar caraminholas e sempre soube o que queria.

Aprendi a ser gente lendo lombada, desrespeitando meus ídolos, redescobrindo as referências da minha infância. Só espero dar aos meus filhos, ainda vindouros, as mesmas oportunidades.

Chove Chuva. Pela poesia, os poetas loucos e as bibliotecas inspiradoras....

bjs,

Moira